resposta
ontem me perguntaram por que não respondi a sua mensagem nem atendi as suas ligações. juro que milhões de argumentos passaram na minha cabeça, só que eu não falei nada. se eu dissesse que era porque você me fez sofrer muito, seria um drama danado. ou se dissesse que era porque você me deu tantos bolos na vida, que agora eu tinha que devolver, eu estaria mentindo, porque já te perdoei por isso. ou se eu dissesse que é porque eu não te amo mais, seria patético, senão nem estaria escrevendo isto. me perguntaram isso e eu fiquei pensando. sabe quando você pega uma prova achando que é de português mas na verdade é de física elétrica? então, olhei pra cara da pessoa com a mesma familiaridade que tenho com circuitos. e eu tentei buscar no meu âmago uma explicação plausível. não era uma questão de honra respondê-la, isso era, na verdade, muito fácil. tentei buscar uma resposta que me convencesse. aí eu tentei, em vez de ir atrás da resposta, lembrar de como tinha sido a nossa relação nos últimos meses, tentei lembrar das nossas conversas e, principalmente, das coisas que você disse e fez. só consegui me lembrar do quanto eu fui submissa, não porque você impunha isso e fazia parte do seu tratamento a mim, mas eu estava tão exausta te amando, que eu acabava me entregando a você, era mais fácil do que fingir dignidade.
reparei o quanto as nossas conversas eram vazias, sem você interessado na minha opinião, sem eu te contando das coisas fúteis na minha rotina, sem você falando bobagens da sua faculdade ou me contando de pessoas que você conhece. nada disso. era apenas uma conversa superficial, entre duas pessoas que se conheceram e conversaram por bastante tempo, mas que no momento apenas gostavam do outro pelo que cada um tinha sido.
cada surpresa sua eu justificava ser parte da sua personalidade imprevisível, mas a verdade é que eu nunca te conheci. você nunca se despiu pra mim. e eu não posso te culpar. eu também não fiz piada de você, não falei que eu estava triste ou chamei você de idiota. eu estava tão preocupada em apenas me manter, ali, naquela conversa, que o último lugar que eu estava era me conectando a você. tanto é verdade, que eu só me fazia sentir afastada de você cada vez mais, mesmo trocando mensagens contigo todas as madrugadas, ou recebendo músicas de ti.
foi sempre uma troca de máscaras. a gente nunca se despiu de verdade. nunca me senti crua, nua, transparente, enquanto conversava com você. talvez meu apego a nós tenha vindo daí. dessa inexistência, da impossibilidade de darmos certo.
eu não posso mentir que tenho medo da complexidade de um relacionamento amoroso. nem posso enganar você a respeito de que é muito mais confortável sofrer calada por você do que aceitar que outra pessoa gosta de mim enquanto eu me decomponho por você. era fácil gostar de você, porque por não ser recíproco, eu continuava sozinha. e que por ficar sozinha e me deprimir por você, eu não precisava me conectar a ninguém. nem a você. infelizmente você.
eu me meti num limbo profundo, busquei ajuda espiritual pra aceitar a irracionalidade do meu amor. fiz terapia, desfiz amizades, mudei de planos, me enclausurei só pra me envenenar com o ar que eu respirava você. me fiz tanto mal só pra me achar desprezível e conseguir justificar porque você não gostava de mim.
eu só queria que você dissesse que sentia o mesmo amor irracional por mim. não queria um encontro de mãos dadas ou um beijo na chuva na chuva. eu provavelmente teria fugido disso à iminência dos seus planos se você me contasse. eu sentiria uma náuse tão forte, que a minha covardia me pararia na hora H.
eu só queria um texto seu falando que não é bobagem nem loucura, você entendia o que eu sentia, porque você se sentia assim também. que tudo bem eu não te conhecer e te amar loucamente, você também o fazia. era só isso. só um e-mail. só uma mensagem. uma indireta no facebook me bastava. uma música em espanhol. qualquer coisa. qualquer vestígio de que eu não sou a única idiota dessa história. mas nada disso veio. só escutei o eco dos seus passos, pois a cada dia você parecia mais distante e desinteressado. e eu não sabia o que fazer ou pensar ou como seguir a minha vida, já que nem eu rastejando nos seus pés te mantinha minimamente interessado. decidi o contrário. quer saber? foda-se você. mas não te contei, não assim, com essas palavras. só falei não me procure mais. nem me importei se isso parecia um ‘procure sim, sua última chance, hein’. deixei o recado e fui embora. nem saí correndo, fui embora calma, como quando caminho na praia. e mesmo com as minhas pegadas, você não veio atrás. você até gritou uma vez ou outra só pra me testar e ver se eu iria olhar pra trás. eu acenei e sorri, mas não porque era reconfortante ver seu rosto, mas porque, hoje, agora, é tranquilo olhar pra ti e não querer destruir o mundo ou devastar todos os sentimentos existentes pra você caber em mim. agora é paz, porque eu entendi, enfim, o significado de relevância.
e mesmo que a minha maturidade e irracionalidade me mantenham apaixonada por você, eu sei quem verdadeiramente importa nesta vida. e você só não vai ser mais um na minha vida, porque a minha imaginação foi muito caridosa com a imagem que eu fiz de ti. não te respondi porque a mensagem era muito grande, e eu não iria digitar tudo isso no celular. é esse o motivo.